Voo muito divertido pela forma como obrigou a pensar a estratégia do dia. Depois de 3 semanas a levar porrada em Plasencia, em dias de humidade abaixo de 15% e temps cerca dos 40º, assim que subi na 1ª térmica e verifiquei o "amaciador" da humidade senti que, finalmente, podia fazer um voo mais tranquilo sem estar permanentemente preocupado com a velocidade de reação à turbulência. Era a parte boa, juntamente com o facto de sitio onde batesse sol e tivesse nuvem à vertical quase sempre tinha "elevador" à espera!
A parte difícil tinha a ver com o teto baixo (os 1605m já foram alcançados dentro da nuvem) e com o jogo de sombras que eu julgava ir melhorar com o avançar da tarde. Enganei-me, fiado em algumas previsões e na habitual "limpeza" da brisa de oeste, o crescimento horizontal dos cúmulos tornava o jogo cada vez mais a favor da sombra e, debaixo dela, com vento fraco no solo, perspectivava-se uma rápida aterragem.
Inicialmente não pensava em fazer uma triangulação e tinha decidido ir voando ao sabor das condições que as nuvens ditassem, no entanto, na zona de Alvadia o teto continuava baixo, o vento de Wsw alí nos 260-270º empurrava para zonas de difícil aterragem e, apesar de alguma contra-deriva, decidi ir na direção do Marão aproveitando os apoios. As linhas que aproveitavam a actividade térmica dos vales eram as que melhor funcionavam mas sair para cima deles tão baixo era uma sentença, caso não encontrasse nada para subir. Fui avançando aproveitando os apoios ou a térmica dos vales junto à parede NW do Alvão.
Em Fervença tinha de optar entre tentar a parede ao lado do ponto mais alto da serra onde estão as primeiras eólicas e tentar subir na zona da aldeia onde ainda tinha hipótese de fugir para uma aterragem razoável! Tentei a parede que, por uma questão de lógica, face á orientação da eólica e uma vez que já estava à sombra, podia parecer quase um suicídio anunciado! Bom, mas foi exatamente esta decisão que fez toda a diferença entre fazer o triangulo ou voltar para trás para uma zona com aterragens seguras.
O que me fez avançar foi a experiência de outros voos em condições idênticas e em que consegui subir em térmicas de sotavento ou mesmo em termodinâmico até estar acima dos 1300m onde está implantada a 1ª eólica a NW. E assim aconteceu novamente. Na realidade ainda não percebi completamente a "mecânica" do processo e, se puder, evito sempre subir demasiado perto da encosta à minha esquerda porque estou sempre apreensivo com a possibilidade de apanhar turbulência forte de sotavento. Não foi o caso, subi quase sem enrolar até poder passar para as encostas viradas a W e ao sol.
De seguida foi seguir para SW, marcar um turnpoint com o pensamento nas térmicas para NW, sem perder muito tempo porque à direita da linha para o vale de Mondim a sombra ia tomando conta de quase todo o terreno, deixando-me praticamente com a possibilidade de aproveitar a energia que se soltava da linha de contraste entre o terreno sombrio e o que ainda recebia luz. Face à pouca altitude e ao degradar do teto, que já obrigava as nuvens a esconder a zona mais alta do Marão, senti que o tempo era curto e não ia permitir trabalhar para subir e seguir para NW a partir da base da nuvem, segui para NW com a S. da Graça à minha direita, ciente de que uma única descendente forte só me deixava a possibilidade de virar e aproveitar a deriva para encontrar uma aterragem decente!
Como não perdi muito até à zona de Carrazedo, decidi manter o rumo em direção da Ponte D'Olo, fiado na planeio da Mantra tendo sido esta a minha ultima decisão de estratégia do voo. A alternativa, que via como forma subir uma ultima vez e fechar o triângulo na aterragem oficial, era seguir a crista a partir de Carrazedo para NE até ao alto do Courisco onde, por norma, se consegue subir fruto da confluência orográfica naquele ponto. Mas, fruto de alguma pressão psicológica da minha bexiga e por achar que, tendo ao alcance do planeio aterragens exequíveis, desta vez não iria optar pela opção mais arriscada!
A aterragem não era um gigantesco campo de restolho de Piedrahita mas serviu o objetivo e o melhor é que entre um pequeno talhão de tomates, outro de abóboras, umas quantas macieiras e ameixas acertei na clareira em poisio para gaudio (imagino eu!) do proprietário!
Copie e cole no seu leitor de RSS
já não fazias um relatorio há uns tempos... daqueles que transmites bem a imagem do que escreves